Inferno, Insônia

publicado em 20/06/2006 na categoria Random.

Meia-noite e meia. Assisto ao VT dos minutos finais do jogo Espanha versus Tunísia. Pênalti. Torres bate e define o placar final do jogo: três a um para os espanhóis. Cansado, decido desligar a TV e dormir. Me viro para um lado e não me sinto confortável. Viro para o outro. Ainda não. Mais uma vez. Agora pareço bem, mas logo sinto um vento frio batendo em minhas costas; os movimentos inquietos deslocaram o edredon. Com habilidade quase acrobata, consigo voltá-lo à sua posição natural sem precisar sair da posição encontrada. Mas, depois de tanta movimentação, sinto calor. Deixando escapar uma palavra de escárnio, arremesso a coberta para os pés da cama. Me sinto desconfortável novamente. Me viro. Me viro de novo. Passo alguns minutos em uma posição e sinto frio. Puxo o edredon mais uma vez. Mais alguns minutos, e desta vez é o calor que me incomoda. Irritado, me sento na cama e ligo a TV novamente. Já são duas e meia – se eu dormir agora, terei no máximo seis horas de sono até o trabalho. Procuro um programa maçante, mas por incrível que pareça me interesso pelo assunto. Desligo a TV às três horas, disposto a dormir, mas sem sono algum.

Calor. Frio. Calor. Frio. Maldito país quente; se estivesse na Sibéria, não precisaria pensar duas vezes antes de me cobrir. Mais calor. Mais frio. Uma música soa insistentemente em minha mente. Steady, as she goes… steady, as she goes. É o inferno em uma cama. Ligo a TV novamente. Já são cinco horas; a situação fica crítica. Mesmo dormindo agora, só terei três horas e meia de sono. Um filme brasileiro de quinta categoria me distrai. Desligo a TV.

Tenho uma idéia brilhante. Me levanto e, mesmo sem dor de cabeça, tomo um remédio para dor de cabeça. Sempre que tomo este remédio, a dor passa – e um sono arrasador me domina. Mas esta noite, é claro, o efeito colateral falha. Ligo a TV novamente. Já são seis horas. Começo a me conformar com o fato de que não dormirei. Resmungo, tenho vontade de socar as paredes mas não posso, pois minha casa ainda dorme. Os ônibus já circulam nas ruas; o trânsito já começa a se formar. O sol nasce e eu quero morrer. Resolvo me deitar e fazer uma sessão de auto-análise. Funciona assim: divido minha mente em duas partes. Uma sou eu, e outra sou eu interpretando um psicólogo. Faço perguntas insistentes para mim mesmo e as respondo de maneira longa e detalhada. O efeito do remédio começa a aparecer, muito atrasado. As perguntas entediantes da auto-análise me ajudam a adormecer. Olho para a TV uma última vez antes de desligá-la. Já são seis e meia. Finalmente durmo.

Duas horas depois, sou sacudido. Já é hora do trabalho. A noite passou e, praticamente sem descansar meu cérebro, começo a pedir para que
ele se apresente para inspeção. Me olho no espelho. Minhas pupilas demonstram o cansaço, sem contraste e sem brilho. Entro no carro e a luz da gasolina acende. Parece um filme do Paul Thomas Anderson. É o fim.

E, assim, a madrugada do dia 20 de junho de 2006 entra para a história como a mais infernal de toda a minha vida.

 

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